Amigos do deserto, tudo fixe?

Aos que acompanham este modesto blog, que quase não tem imagens, que não chegam até aqui apenas pelos wallpapers gospel que crio: esta minha viagem pra fora do Brasil está me fazendo um bem danado.

Não houve mudança de convicções. Pelo contrário. Me sinto agora mais cristão do que nunca. Estou começando a compreender um pouco mais sobre a ação da Graça oferecida por Deus a todo aquele que nele crê. Sinto cada vez mais alegria em sentir a presença de Deus nas coisas que antes pareciam tão simples.

Antes de vir para Angola, eu pensava que sempre deveria ser reconhecido como cristão. E achava que a ação que me faria ser reconhecido mais facilmente seria a de ter um cargo eclesiástico. No final do ano de 2009, foi dito na IBM que o quadro de diáconos seria renovado. Olha, vocês não imaginam a expectativa que foi criada em torno do meu nome. Lia a passagem de Atos, relatando a instituição dos primeiros diáconos, de que a escolha deles foi decidida pela congregação, e alguns deles, depois de algum tempo, destacaram-se na árdua tarefa de transmitir o Evangelho às nações. Passava um filminho na minha cabeça, onde eu imaginava ser chamado à frente no púlpito, para ficar de joelhos perante o pastor e, depois do óleo derramado sobre a minha cabeça, passar a ser conhecido como Diácono Junior Lima. E mais, já pensava até no início da carreira eclsiástica. Hoje, quando lembro de como me sentia naquele momento, começo a dar risadas. E,  na última ceia do ano citado, onde foi realizada a cerimônia de consagração dos novos diáconos, embora muitos houvessem me cumprimentado antes do culto começar, embora tenha colocado meu melhor (e único rs) terno, meu nome não foi pronunciado pelo distinto líder. Se houvesse uma banca de apostas para apontar os escolhidos, muita gente ia perder uma grana apostando no meu nome…

Se eu disser para vocês que não fiquei chateado, estaria mentindo. Fiquei frustrado. E alguns irmãos ainda vieram conversar comigo, dizendo que eu merecia estar lá, que meu dia iria chegar etc. Chegaram a me colocar entre os que sairiam da igreja por conta do descontentamento (rs).

O bom do caminho para a vida eterna é que sempre aprendemos coisas novas todos os dias. O choro durou uma noite apenas. E, como ouvi falar ontem, não devemos possuir pensamentos fixos sobre nenhuma questão. Devemos sempre estar abertos para uma nova perspectiva acerca de nossas convicções.

Minha mãe, que hoje é cristã através da minha conversão, me disse certa vez que ela não precisava de um cargo de igreja para realizar a obra de Deus. Eu pensei que tinha entendido o que ela disse, até este ano começar. Mesmo procurando seguir a linha de raciocínio dela, sempre esbarrava no que eu pensava: terei mais respeito se tiver um cargo eclesiástico reconhecido.

Quando cheguei em Angola, na igreja que estou congregando, me apresentei como sendo professor da escola dominical, músico da igreja e um dos pregadores oficiais da minha congregação no Brasil. Essa apresentação se tornou necessária, até porque não tinha nenhum documento da minha igreja no Brasil provando isso (olha só como meu pensamento estava). Mas Deus, em sua infinita misericórdia, me ensinou durante esses 3 meses que nenhum documento ou cargo eclesiástico é mais importante do que a presença do Espírito Santo em minha vida.

As maiores experiências que vivi como cristão, por enquanto, aconteceram fora da frente missionária que eu auxilio. Não porque deixe de trabalhar, porque nesta congregação exerço as mesmas funções de outrora: fui indicado para professor da classe dos adultos, toco violão durante o momento de louvor e já fiz o sermão em 3 cultos. Mas as atitudes que me aproximaram mais da forma de viver do Mestre aconteceram na casa onde moro.

Neste local, moram eu e o impressor da gráfica onde trabalho por aqui, além de 4 professores universitários (mestres e doutores), além dos donos da casa, um tenente reformado do exército angolano, e uma procuradora do ministério da justiça em assuntos relacionados à mulher, e uma prima da dona da casa. Destes, eu, a dona da casa e a prima dela professam a fé cristã, congregando em alguma igreja evangélica. Os outros, embora creiam em Deus, não frequentam nenhuma reunião cristã.

É comum nos reunirmos, ocasionalmente, no quintal, onde puxamos algumas cadeiras e conversamos sobre diversos assuntos. Nem sempre eram todos que se reuniam ao mesmo tempo. E, dentre as nossas conversas, onde os temas são os mais variados, quando surgem alguma questão religiosa, todos eles querem ouvir a minha opinião sobre o assunto. Isso não é uma conclusão minha. Eu ouvi isso do dono da casa em duas situações diferentes. Quando o assunto vai pro sítio religioso, querem ouvir o que o Junior pensa a respeito. E em todas as vezes que abri minha boca e apresentei a minha opinião, sempre foi recebida e aceita. E os temas já foram os diversos, como adultério, homossexualismo, línguas estranhas, enriquecimento ilícito de pastores, teologia da prosperidade etc.

Confesso para vocês que em todos eles me sentia acuado para falar. Afinal, eu estava na presença de pessoas formadas, que dedicaram boa parte de sua vida aos livros. Eu não cursei faculdade. Apenas concluí o Ensino Médio. Mas Deus me exaltou. Não precisei falar com eles que no Brasil exercia funções dentro da igreja. Não precisei falar que sou cristão há mais de 10 anos, e nem dizer que tenho um blog na internet. Assim como aconteceu com Pedro, o meu falar me denunciou (claro, para o lado bom da coisa).

Ontem, surgiu por acaso mais um debate desses. E haviam visitantes na casa. O assunto em pauta era acerca das línguas estranhas, onde dois disseram que eram doideiras de pessoas em transe, e também sobre a teologia nociva da igreja universal, que segundo a história que foi posta à mesa, uma mulher colocou o marido na cadeia quando desconfiou que ele pegeou parte do dinheiro destinado à oferta na igreja. O valor era de USD 45.000…

Todos falaram o que pensavam do assunto, e eu calado, com um receio maior do que os anteriores, por conta da presença dos visitantes. Até que o dono da casa disse: “Bem, vocês sabem quem pode nos trazer uma luz acerca dessas questões. Junior, por favor, nos dê a sua opinião sobre esses assuntos.” Os moradores da casa concordaram de imediato, e voltaram sua atenção pra mim. Os visitantes também.

O tempo congelou por instantes (brincadeira, disse isso só pra dramatizar rs).

Quando comecei a expor o assunto, todos ficaram prestando bastante atenção no que eu falava. As interrupções que eram comuns cessaram. Somente eu falava. Falei por quase 20 minutos. Resumindo o que eu disse: sabe qual o maior problema do cristão contemporâneo: ele aprende que deve ter uma Bíblia, que deve usá-la como regra de fé, mas que só é aberta quando outras pessoas a pedem para abrir, em textos e em locais específicos. E mais: quando lê em casa, lê o mesmo texto que foi lido na ocasião. Porque, se lessem a Bíblia buscando conhecer a Deus, ao invés de ficarem preocupados apenas de que maneira se consegue ser abençoado financeiramente mais rápido, leriam que na Bíblia está escrito que o dom de Deus não pode ser adquirido através das riquezas, que a maior oferta apresentada na Bíblia foi a de uma viúva paup+errima que só tinha duas moedas, e que para as manifestações dos dons espirituais há uma norma de conduta, descrita em 1Coríntios 14.

Trago esta minha experiência pro blog para exaltação própria? Para ganhar um convite da sua igreja quando eu retornar ao Brasil, agora no dia 17/4? Para ganhar mais uma chance para ser diácono? Não. Trago minha experiência pra cá para que você compreenda que você não precisa de um cargo eclesiástico para fazer a obra de Deus.

A água, mesmo sendo colocada numa garrafa com um rótulo dizendo que é whisky 12 anos, não deixará de ser água. Pense nisso.