O artigo é extenso, mas vale a pena dedicar parte de seu tempo para lê-lo:
Cada um de nós tem uma teologia, que será pior ou melhor conforme lemos a Bíblia e nos relacionamos com o Deus nela revelado.
É através da teologia que o cristão vê Deus e o mundo e com eles se relaciona.
Nossa teologia advém de várias fontes, como a religião/denominação a que estamos integrados, os princípios apreendidos na família, os valores que povoam o mundo, nossas experiências de vida e os nossos temperamentos.
A pergunta que se levanta é: qual o papel da Bíblia em nossas visões teológicas? Idealmente, ela deveria ser a fonte autorizada de tudo o que pensamos. Na prática, porém, nós a lemos com as lentes que nos deram. Nossas experiências com Deus têm, na prática, mais a ver com as nossas experiências do que com a revelação que nos legou.
Nossa história nos forma mais que a própria Bíblia. Deveria ser diferente, mas nem sempre o é. Muitas vezes, cremos e fazemos com que a Bíblia autorize o que cremos. (A Bíblia que se encaixe!)
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Ouvimos, que acabamos acreditando, que Deus tem um plano pré-determinado para cada um de nós. Ai de nós se não o cumprirmos.
Um atacante marca um gol que faz seu time vencedor; na entrevista, ele diz que o gol foi da vontade de Deus. Não precisamos tomar cuidado com o uso da expressão?
Muitos pensamos que a vontade de Deus é um plano geral pré-determinado por Deus para cada um de nós. Nossa felicidade depende de conhecer este roteiro pré-fixado e segui-lo a risco. Como escreveu Eugene Peterson, “a expressão ‘vontade de Deus’ talvez seja um dos termos mais sombrios do vocabulário cristão. (…) Normalmente usamos ‘vontade de Deus’ como nada mais um clichê desprovido de conteúdo”, levando-nos “a um mergulho perplexo num redemoinho de ansiedades”.
Ficamos, então, ansiosos se esta (ou aquela) decisão que tomamos (ou estamos para tomar) é da vontade de Deus.
Precisamos compreender que Deus não nos dotou de liberdade e, em seguida, laçou nosso pescoço com um cabresto, para irmos apenas onde nos puxa ou empurra.
Não há um destino (como criam os gregos em seu fatalismo) para cada um de nós.
Precisamos entender que a vontade de Deus brota da sua soberania, mas se realiza num relacionamento conosco que é fraternal e dinâmico por natureza. Esta vontade está delineada em sua Palavra, onde estão lavrados os princípios para uma vida santa, sábia e saudável. Por isto, canta o poeta: “agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração, está a tua lei” (Salmo 40.8).
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Vontade de Deus tem a ver com relacionamento, logo está menos para conhecimento e mais para obediência. Por isto, Jesus mesmo garante: “qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Marcos 3.35). O apóstolo Paulo deixa claro que a vontade de Deus é que todos vivemos de modo santo (1Tessalonicenses 4.3), modo que está claramente apresentado na Bíblia.
Não existe, então, vontade de Deus? No sentido de plano obrigatório a ser seguido, não.
No sentido de que há decisões boas e ruins, sim. Neste caso, devemos ler a Bíblia onde está todo o conselho de Deus. Devemos, ao mesmo tempo, orar em busca de orientação e aguardar a sua resposta, que pode vir por alguma maneira sobrenatural mas que geralmente vem através de sinais e placas,
como aquelas das ruas e estradas que percorremos, sempre em consonância com a Palavra de Deus já dada e jamais contraditada.
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Assombra as pessoas de fé a ansiedade pela maneira “correta” com que deve ser feita a oração.
É como se Deus estivesse numa caverna, esperando que, do lado, de fora digamos o abra-cadabra certo, ou fosse um cofre que tem um segredo cheio de letras que precisamos manejar até encontrar a combinação certa, ou uma máquina que dispensa dinheiro ou refrigerante que espera que apertemos o botão certo que faz cair a bênção, desculpe, o produto, ou um aladim na garrafa a ser libertado com palavras mágicas.
Um deus assim não é senhor, mas escravo, a quem damos ordens. Um dos pregoeiros da chamada oração de confissão positiva ensina: “Tendo recebido a alegria divina em nosso coração, não precisamos mais esperar para que sejamos abençoados, mas somente crer e determinar que a obra seja feita”.
Além desta visão sem base bíblica, há outras que nos levam a pensar que há uma maneira correta para o corpo se postar na oração, e parece que Deus prefere aquela feita de joelhos ou com as mãos levantadas.
De igual modo, se fizermos a nossa oração “em nome de Jesus”, ele vai nos atender.
Orar é mergulhar numa atmosfera de mistério. Devemos orar, bater, insistir até e esperar sempre. Deus tem uma vontade (desejo), que se cumprirá. Apresentamos a nossa, mas é a dele, sempre melhor para nós, que acontecerá.
Não existe um modo correto de orar, mas deve haver um coração contrito na oração.
Se não fomos atendidos, não precisamos nos angustiar fazendo perguntas que não têm respostas. Não precisamos subir em montes que vem o socorro.
Não precisamos jejuar, para ser ouvidos, embora devamos jejuar, para conhecermos mais de Deus. Não precisamos decorar orações respondidas para sermos atendidos; devamos nos derramar diante dEle conscientes de Sua presença.
O modo correto da oração é, portanto, a espera.
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Fonte de frustração é a ideia que Deus impede que a injustiça prevaleça na vida dos justos. Quando então a doença mais dura alcança um homem ou uma mulher de Deus, ficamos perplexos. Quando um homem ou mulher sem compromisso com Deus se dá bem, entramos em crise.
Como nos lembra Larry Crabb (“Chega de Regras”), ensinaram-nos que, se queremos, por exemplo, um bom casamento, devemos conhecer e seguir o modelo bíblico para o casamento; se queremos bons filhos, basta que os ensinemos no caminho em que devem andar. Quando colhemos o que plantamos, confirmamos a lei da semeadura. Quando colhemos espinhos que não plantamos, ficamos confusos, adoecidos, revoltados. Em lugar da linearidade (A produz B), devemos seguir o princípio da liberdade: “os que vivem esse novo caminho se aproximam como estão. Não se banham antes de chegar a Deus. Vão a Deus para se banharem nele. Não se sentem pressionados a mudar apenas a vida interior ou a exterior, mas desejam mudança em ambas as esferas. Estão interessados em criar a oportunidade para a mudança, mesmo que isto signifique mergulhar sete vezes num rio lamacento ou marchar ao redor do muro de um inimigo durante sete dias e soprar trombetas. Eles vivem o desejo mais sincero de seus corações: conhecer a Deus e satisfazer–se nele. Não vivem para uma vida melhor neste mundo”.
Cremos no cuidado de Deus. Cremos e devemos crer. Este cuidado se realiza quando B é o produto de A e também quando A não dá os resultados que imaginamos. A injustiça no mundo (e não apenas com os que creem nele) é um atentado contra a sua justiça, mas nem assim Ele deixa de ser soberano. Gostaríamos que fosse diferente, mas o sol nasce para todos, a chuva também, como ensinou Jesus (nosso “Pai celeste… faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” — Mateus 5.45 — ARA)
Deus manifesta sua glória quando nos livra da morte e também quando nos leva para ele.
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Crescemos mas Deus continua do tamanho dos nossos infundados temores infantis.
Desde então, imaginamos que Deus olhos que tudo vêem, de modo que o nosso pecado não se lhe escapa. Adultos, acabamos percebendo Deus como possuidor de um poderoso radar que busca motoristas em excesso de velocidade, pois Seu prazer é nos multar.
Diferentemente aprendemos sobre outro Deus até mesmo no Antigo Testamento. Quem diz que “os olhos de Deus estão sobre os caminhos do homem e vêem todos os seus passos” (Jó 34.21) não é um Jó confiante, nem um Deus poderoso, mas Eliú, no interior de sua teologia. Praticamente todas as expressões na Bíblia contendo “olhos do Senhor” são para promover a fé saudável, não para impor o medo de Deus. O salmista descansa por estar sob estes olhos:“Eis que os olhos do Senhor estão sobre os que o temem,
sobre os que esperam na sua misericórdia,
para livrar-lhes a alma da morte
e, no tempo da fome, conservar-lhes a vida”.
(Salmo 33.18-19)Apesar disto, podemos desenvolver a ideia de que Deus está mais interessado em nossa santidade do que em nossa felicidade.
Não inventamos esta ideia. Ela pode ter origem nas “boas” intenções dos nossos pais que, para nos “educar” inocularam em nós o medo do castigo de Deus até por coisas com as quais Deus não se importa (como piercing ou jogo de futebol).
Essa ideia pode estar na maneira como lemos o Antigo Testamento. De fato, o antigo testamento é bilateral; o testador (Deus) está desobrigado a cumprir a sua parte se o testado falhar nas condições fixadas previamente. Quando percorremos as páginas do Antigo Testamento, vemos que, apesar da falha de Israel, Deus continuou a amá-lo; o testamento continuou em vigor. Tanto que o novo testamento não anulou o antigo, porque o aperfeiçoou. A aliança era condicional, mas Deus continuou incondicional em sua fidelidade.
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O legalismo se tornou uma tentação muito abraçada, e tão massivamente que Jesus passou parte do seu tempo desconstruindo furiosamente o farisaísmo, cujos mestres ensinavam que nós nos tornamos mais aceitáveis para Deus obedecendo os seus mandamentos. Para eles, Jesus, então, desagradava ao Pai ao comer com pecadores (publicanos) e andar com pecadoras (prostitutas).
Para os legalistas (que raramente se assumem como tais ), Deus é totalmente contra os prazeres e absolutamente a favor de regras e obrigações. Para os legalistas, todos os nossos problemas (como as doenças e os desempregos) advêm de nossos pecados.
Os legalistas se deliciam com as passagens que falam do “temor do Senhor” (27, na ARA, e 26, na ARC) ou “temor de Deus” (11, na ARA, e 6, na ARC), que imaginam ser “medo do Senhor”. A expressão quer, melhor, dizer levar Deus a sério ou manter comunhão com Deus ou ter Deus no centro da vida. A tradução feita por Eugene Peterson para Provérbios 1.7 capta bem a essência da proposta bíblica: “Tudo começa com o Eterno — ele é a chave de tudo”. (A MENSAGEM)
Deus não quer ter amizade (comunhão) com pessoas que tenham medo dele. Na verdade, não há medo entre amigos. Deus quer ter amizade com pessoas que o levem a sério e o amem.
Assim, felicidade e santidade andam juntas. Deus não está mais interessado numa coisa e menos em outra, porque elas não podem ser separada. Não podemos ser santos e infelizes ao mesmo tempo.
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Não é fácil entender a dinâmica da graça. Seu compasso ora é regulado pelo nomianismo (legalismo), que a nega, ora pelo antinomianismo (libertinismo), que também a nega. Em termos do dia a dia de boa parte dos cristãos, cada um deve se guiar por sua consciência, como se ela fosse segura.
Os legalistas negam o valor da atenção aos mandamentos legados na Bíblia para a salvação e para a vida do cristão. O que importa é a consciência de cada um.
Como resume Sproul, “os antinomianos cultivam aversão pela lei de várias maneiras. Alguns acreditam que não têm obrigação de obedecer às leis morais de Deus porque Jesus os libertou da lei”. Outros “insistem em que a graça não só liberta da maldição da lei de Deus, mas também nos liberta da obrigação de obedecê-la”. Assim, a graça “se torna uma licença para a desobediência”.
Jesus aboliu as leis cerimoniais e os regulamentos, mas, sobretudo, enterrou a ideia de que nossas obras, por mais meritórias que sejam, nos salvam.
“Os mandamentos de Deus devem ser vividos, mas agora, como filhos de Deus, não mais como um peso”. Assim, “não somos salvos por obedecer aos mandamentos divinos, mas somos salvos para vivermos segundo os mandamentos divinos. Não somos salvos para viver licenciosamente, mas para viver uma nova vida em Cristo”. (J.I. Packer)
O antídoto para o legalismo é a doutrina bíblica da graça gratuita e soberana.
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Ensinam alguns que precisamos acreditar que Deus quer que sejamos saudáveis e ricos. Devemos reivindicar o que é nosso.
Deus nos abençoa necessariamente com coisas, como saúde, dinheiro, emprego, casa e carro. Afinal, o cristão nasceu para ser cabeça e não cauda, bastando-lhe apenas tomar posse da bênção. Ele precisa acreditar que aquilo que diz na oração é a vontade de Deus.
A mensagem de alguns púlpitos, reverberado nas vozes dos ouvintes, sugere, ao estilo dos amigos de Jó, que se a vida um cristão não está prosperando, é porque ele está em pecado, que lhe traz o castigo. De algum modo, sugere-se também, que se alguém está doente é porque não se acertou ainda com Deus. Afinal, doença não vem de Deus, mas do maligno. É infelizmente comum que pais, professoes destas correntes de teologia, retirem seus filhos dos hospitais para serem curados mediante a fé. Por esta razão, há hospitais que proíbem visitas dessas pessoas às alas dos enfermos nos domingos à tarde…
A maior dificuldade da graça, da verdadeira graça de Jesus abrigada nos Evangelhos, é a sua simplicidade. Sua irreprochável lógica é que não precisamos merecê-la.
O mundo é o mundo das trocas. Acabamos achando que o nosso relacionamento com Deus é também de troca. A chamada teologia da prosperidade, teologia pagã que sedutoramente reúne versículos bíblicos fora do seu significado pretendido, mata, porque reproduz a injustiça do sistema econômico predominante, que mata.
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A tradição é necessariamente boa — insistem alguns.
Como cristãos, é bom saber que somos parte de uma grande nuvem de testemunhas, que começa a cobrir a terra antes mesmo de Jesus Cristo ser revelado como Salvador e Senhor. Graças à tradição, não precisamos reinventar a fé a cada geração.
No entanto, nossa inserção na tradição pode gerar um fechamento ao novo, capaz de refrigerar nossa compreensão da fé e iluminar nosso modo de comunicá-la aos sem-fé.
Além disso, o apego à tradição gera um lamentável tipo de restauracionismo, totalmente alheio à realidade histórica. O tradicionalismo se alimenta de uma miragem do passado, um passado inventado e idilizado. Assim, para sermos cristãos, precisamos resgatar as experiências do passado, esquecidos que o passado é irrepetível, uma vez que os contextos são diferentes e nós mesmos somos diferentes. O passado, real ou imaginado, não pode ser recuperado.
Quem respeita o passado deve respeitar as pessoas que o fizeram, já que o fizeram porque o seu tempo o demandou. Se queremos ser respeitosos para com os do passado, devemos fazer o que o tempo nos demanda fazer.
Devemos, antes, nos perguntar: por que fazemos o que fazemos? Faz sentido fazer o que fazemos?
O fato de sempre termos feito de um certo modo não é motivo para continuarmos a fazê-lo.
Devemos tomar cuidado para não transformar a tradição em palavra de Deus, porque não passa de palavra de homem, que negligencia o mandamento de Deus (Marcos 7.8).
jesus disse quando voltasse a veria fé na terra; POR causa das muitas teologias; do EU acho. ou coisa parecida.